sexta-feira, 5 de outubro de 2012

COMPOSIÇÃO

Verso! Livremente te faço livre.
Não me livro de te limar;
não me livro de te retocar.
Aqui uma vírgula, ali um ponto.
Suprimo, acresço palavra ou verso
dentro do todo, todo dia.
Dou-te forma linear, ando em curva
e faço círculo, não defino geometria,
não me ligo em forçosa harmonia.
Dou-te métrica, rima ou deixo em branco,
recorto ou não dou nada
de estética, mas algo de sangue,
da alma e da mente,
que encontro latente ou que invento.
Tens de mim e tens do outro
elogios, zangas, alegrias e taras,
sonhos, projetos, frustrações
e até alguma doutrinação.
Sem sistemática, com e sem tema
és uma teima no meu dia.
Na busca obsessiva da música
ensaio e me perco no contexto.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

ALTARES DA VIDA



Apesar dos pesares
(nem tudo é peso,
também há leveza)
me ponho nos altares.
Vida é mesa, missa, recidiva,
sacerdote e sacrifício.
Sou eu mesmo o sacrifício,
imagem de desamor reflexiva.
Objeto de amor e devoção,
a felicidade fluida
de mim descuida
e é minha perseguição.
Calvário e bonança nos mares,
planícies e planaltos.
O vento sopra em contralto
e agudo me diluo nos ares.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

CICLO DA VIDA

No começo era o peso,
depois veio a leveza.
No começo era a matéria dura,
que depois se rarefez.
E de novo veio o peso,
que se alternou com a leveza.
Outra vez a matéria endureceu
e se rarefez.
E em mim tudo outra vez
se esqueceu.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

-----------DURA CONSTRUÇÃO-------------------

>Meu espírito é uno desde o começo.
Duo no projeto, se combina e, múltiplo,
compõe de amálgama a unicidade de mim
e de tudo que existe. E incompleto,
volta ao começo.
Eis o fim. >
II
Vida encoberta...
Sou matéria, animada agora, inanimada depois,
morta ou viva, pesada ou leve, sentida na alma,
que se põe confusa, na morte e na vida.
Parece que morrer e viver e ser uno é definitivo,
mas sou duo, durmo e morro no corpo cansado,
na alma penada... Tudo permanece latente.
No sono, na morte, sou cinza e brasa...
Alma se resgata, embala e esquece em tantas asas.
E busca por vocação e fim a sabedoria possível.
O corpo plasma, acorda e veste, dorme e desveste
a alma, que na busca do conhecimento, me arquiteta
em tudo que fala, se aquieta, falta, sobeja, prende...
me liberta.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

REMÉDIO PARA APATIA


Como eu, a poesia é reticente,
mas alerta no alvorecer,
explode em minha mente
e se espalha pelo meu ser,
entra pelos olhos e ouvidos.
Leve e sem alaridos,
freme e sensibiliza
todos os sentidos.
Ao pesaroso não neutraliza
e é por isso sempre poesia.
Reinventa-se e veste a tristeza,
não só a alegria e a beleza.
E todo dia se anuncia,
desfazendo toda apatia.



domingo, 30 de setembro de 2012

VACILAÇÃO



Busquei na vida intrepidez
e só conheci a timidez.
O medo de não agradar
todo não se desfez.
Pareço/padeço fraco, a tagarelar
(essa é minha tez).
Não sei quando e se será
alguma a minha vez.
Visto capas, não sei retratar
toda a minha nudez,
que quer e não se mostrar.
E nem tudo é sordidez,
mas de puro e impuro, a tropeçar,
busco alguma fixidez.

sábado, 29 de setembro de 2012

VIAJANTE



Nosso afã:
somos viajantes
vida afora,
desde ontem,
ainda agora
até amanhã.
Norte traçado,
sorte desalinhada,
morte de emboscada.
Determinismo,
possibilismo,
fatalismo.
Muitos caminhos.
Andamos sozinhos.
Qual o sentido
de tantos sentidos?
Estamos perdidos.